quarta-feira, setembro 24, 2014

Série Close


Benjamin

Revelações de Sebastião Salgado



“Quando desembarcava pela primeira vez em um país, compreendia sua situação e sabia situar minha fotografia naquele contexto. Sempre fui capaz de colocar minhas imagens dentro de uma visão histórica e sociológica. O que os escritores relatam com as suas penas, eu relatava com a minha câmara. A fotografia é para mim uma escrita. É uma paixão, pois amo a luz, mas também é uma linguagem. Poderosíssima. Quando comecei, não tinha limites. Queria andar por todos os lugares onde minha curiosidade me levasse, onde a beleza me comovesse. Mas também por todos os lugares onde houvesse injustiça social, para melhore descrevê-la.”

“Cada uma das minhas fotos é uma escolha. Mesmo nas situações difíceis preciso querer estar presente e assumir essa presença. Aderindo ou não o que está acontecendo, mas sempre sabendo por que estou ali. Segui os sem-terra foi minha maneira de participar de seu movimento. Mostrar as imagens da fome na África, uma maneira de denunciá-las. Em toda parte, essas imagens suscitaram reações. A fotografia é uma escrita tão forte porque pode ser lida em todo o mundo sem tradução.”


“Como já relatei, vi tanto sofrimento, ódio e violência ao longo das reportagens para Êxodos que saí muito abalado. Mas não me arrependo de tê-las feito. ‘Diante de uma atrocidade, o que constitui uma boa foto?’, às vezes me perguntam. Minha resposta cabe em poucas palavras: a fotografia é a minha linguagem. O fotógrafo está ali para ficar quieto, quaisquer que sejam as situações, ele está ali para ver e fotografar. É através da fotografia que trabalho, que me expresso. É através dela que vivo.”

Da minha terra à terra, 2014. (Isabelle Francq, Sebastião Salgado)

quinta-feira, setembro 11, 2014

cigarros


terça-feira, setembro 09, 2014

libertação


domingo, setembro 07, 2014

Frankfurt am Main


quinta-feira, setembro 04, 2014

Relatos fotográficos de uma guerra sulafricana


“De repente fui invadido por uma sensação de calma absoluta. Era isso. Estava resgatando minhas dívidas. Estava expiando as dezenas de ocasiões que sempre resultavam em alguém ferido ou morto, enquanto eu saía incólume da cena de caos, fotos na mão, tendo cometido o crime de ser o voyeur sortudo.”

“Boas fotos. Tragédia e violência certamente geram imagens poderosas. É para isso que somos pagos. Mas cada uma dessas fotos  tem um preço: parte da emoção, da vulnerabilidade, da empatia que nos torna humanos se perde cada vez que o obturador é disparado”.

“Sempre me sentira culpado por ser um voyeur de passagem pelos momentos de tragédia das outras pessoas. Uma grande sensação de paz me invadiu, uma sensação de que eu saldara minhas dívidas.”

“Tínhamos arriscado a vida muitas vezes por aquilo, e nem mesmo a morte de Ken impediria João e Kevin  de irem a Thokoza. Documentar aquele pequeno fragmento de história era mais importante do que considerações pessoais ou de segurança. Eles não podiam ficar em casa naquele dia. Não naquele dia.”

“Às vezes nos sentíamos uns abutres. Pisamos em cadáveres, metafórica e literalmente, e fizemos disso nosso ganha-pão. Mas nunca matamos ninguém e, na verdade, até salvamos algumas vidas. E talvez nossas fotos tenham feito alguma diferença, ao mostrarem componentes da luta de outras pessoas pela sobrevivência que, de outro modo, não teriam sido vistos.”

“A sensação de culpa tem mais a ver com incompetência, com uma incapacidade de ajudar. Deveríamos nos sentir mal depois de testemunhar qualquer sofrimento, ainda que não fôssemos responsáveis por ele. Mas é possível lidar com a culpa real: podemos nos confessar ou nos açoitar todas as manhãs antes do café. Muito mais difícil, quase impossível, é lidar com uma incapacidade intrínseca em ajudar, é lidar com nossa própria incompetência – sempre seremos incompetentes para ajudar a todos os que necessitam de ajuda.”

“Fumaram um baseado com pêlo de gato e a conversa seguiu em frente. João não tinha dúvida de que havia um preço a pagar pelas fotos que tirávamos. Raramente discutíamos isso. Kevin não concordava e estava ficando irritado: ‘Punição? Para que haja punição, tem que haver pecado!’. ‘Tem que haver punição para as coisas que fazemos as vezes!, insistiu João. ’Você está dizendo que o que nós fazemos é pecado?’. Perguntou Kevin. João não soube responder, mas achava que devia haver algum tipo de punição para nós, que olhávamos pessoas se matando través do visor, e tudo o que fazíamos era tirar fotos.”

“Dobraram uma esquina poucos segundos depois do ataque e joão ainda viu as nuvens amarronzadas de poeira das explosões e pessoas correndo para se protegerem. Disse ao colega que parasse. Ao sair do carro, viu um homem emergir da poeira. Carregava nos braços uma criança ferida e foi direto para o carro, erguendo a criança num silencioso apelo de ajuda.
Sem hesitar, joão ajudou-os a embarcar no banco de trás, e dispararam para o hospital. Quando chegaram, joão finalmente tirou fotos do homem levando a criança para o pronto-socorro. Viu os médicos tentarem desperadamente salvar o garotinho, mas ele morreu na mesa de operação. João pensava com frequência naquele dia, na opção que fizera de não fotografar e de tentar salvar a vida de uma criança. Bater uma foto teria levado uma fração mínima de segundo, mas os instintos dele eram outros. Antigamente teria tirado as fotos e depois, talvez, ajudado a criança. ‘Eram imagens de guerra muito boas, mas decidi não bater. Eu nunca tinha feito isso. Mas a morte da criança acabou tomando meio sem sentido o gesto humanitário’.”


O clube do bang bang, 2002. (Grag Marinovich, João Silva)

Relatos fotográficos de uma guerra sulafricana


“Eu tinha me interessado por fotografia alguns anos antes, como um meio de explorar a vida de outras pessoas – quando mais deferente da minha, melhor. Havia descoberto que nada como uma câmara para autorizar a curiosidade”.

“Eu estava no circulo de assassinos, disparando como uma grande-angular a um braço de distância, perto demais. Estava horrorizado, gritando mentalmente que aquilo não podia estar acontecendo. Mas conferia o tempo todo as indicações de luminosidade, trocava de câmeras, carregadas com filme preto-e-branco e coloridos, e avançava rapidamente o filme, um fotograma atrás do outro. Tinha consciência tanto do que fazia como fotógrafo quanto do cheiro forte de sangue fresco e do suor fedorento dos homens ao meu lado.”

“No entanto, embora tentássemos contar a verdade através de nossas reportagens e legendas, nossas fotos acabaram desempenhando, sem que fosse essa a intenção, um papel no embuste – nossas imagens naquela noite em Sobokeng mostravam negros assassinados de maneira horrível e policiais brancos uniformizados levando os corpos embora, investigando as mortes. Ficou a impressão de que a polícia estava ajudando as vítimas. Nossas fotos eram incapazes de mostrar que eles haviam chegado horas depois dos pedidos urgentes de ajuda, eram incapazes de mostrar a absoluta certeza dos sobreviventes de que as forças de segurança tinham participado do ataque.”

“Difícil não ser perturbado por toda aquela gente morta, mas era igualmente difícil não desligar as emoções. Eu não conseguia suportar o repetido impacto de uma completa reação emocional a cada cadáver ou pessoa ferida com que topava – precisaria ter sido um santo. Mas também não queria agir como os fotógrafos mais experientes pareciam fazer: desligar completamente.”

“Mas naquela tarde, enquanto os xosas se preparavam para combater os zulus, isso era potencialmente fata. Seus cachos , o brinco e a roupa da moda estabeleciam uma diferença de classe com os habitantes da favela. Estes sentiam pouco entusiasmo por jornalistas em carros bonitos que surgiam nos piores momentos dos moradores carregando equipamentos caros. Testemunhávamos seu sofrimento e íamos embora com um registro desse sofrimento, o qual usaríamos para ganhar um bom dinheiro. Não nos queriam ali, odiavam-nos.”

“Sinto muito que seu amigo Abdul tenha morrido. É bom que um de vocês morra. Nada pessoal, mas agora vocês sentem na pele o que acontece conosco todos os dias”.

“A fita gravou minha sombra fundindo-se com a deles e meu arquejo violento antes de a camêra cair no chão e apagar. Eu sempre soube que um dia, em algum lugar, eu poderia ser ferido. Em muitas ocasiões a morte passou perto demais para que eu pudesse ignorar o perigo, mas nunca achei de fato de que seria ferido. Havia aceitado a possibilidade intelectual, até a probabilidade de ser ferido um dia, mas num nível emocional eu me sentia intocável, imortal. A ilusão de segurança, que era apenas a ausência de ferimento, fora destruída de maneira inesperada e revelava uma vulnerabilidade inimaginável. Fizera-se em pedaços a patética crença de que eu estava no comando de mim mesmo, de meu próprio destino e de meu ambiente imediato.”


O clube do bang bang, 2002. (Grag Marinovich, João Silva)

domingo, agosto 24, 2014

Prá kys Tão


quinta-feira, agosto 21, 2014

Tagebau Nochten - carvão